terça-feira, 7 de janeiro de 2014

GRANHA

Paróquia galega pertencente ao município do Covelo situada na encosta da Serra do Suído no vale alto do rio Tea. Com 330 habitantes, a sua populaçom acha-se distribuída entre os lugares de Eido Gonçalo, Fonte do Canão, Mungidouro, Moinhos, Portelinha de Campo, Rebordechão e Salzedo.
Granha: as pegadas judaicas nas aldeias da Galiza
Os habitantes da Granha (granhudos), apresentam riscos antropológicos que claramente os diferencia do resto da populaçom circundante e que se identificam com outros casos de comunidades de criptojudeus ou cristãos-novos. 

Esta comunidade isolada geograficamente considera-se a si própria descendente de Judeus conversos e representa um dos grupos diferenciados mais importantes da península, pois conservaram muitos dos seus costumes até os nossos dias. Entre as suas singularidades destaca-se a consciência de "raça diferente", percepçom recíproca dos habitantes das povoações vizinhas e das pessoas que conhecem os seus modos de vida. 


Segundo a tradiçom, quando os chamados reis católicos decretaram a expulsom dos Judeus dos reinos de Espanha, alguns dos que viviam na Galiza, mormente na área de Ribadávia, vieram a se refugiar aos pés da Serra do Suído. Destarte, afastados da populaçom, poderiam seguir a praticar a suas crenças em secreto e safar da perseguiçom implacável da Inquisiçom. 

Tanto a semelhança das construções que ainda se conservam na Granha com as existentes na Judiaria de Ribadávia quanto as históricas ligações comerciais dos granhudos com a capital do Ribeiro parecem confirmar esta hipótese. 

Relativamente à confirmaçom da ideia de serem descendentes de Judeus/conversos, transmitida polos granhudos de geraçom em geraçom, resulta fulcral o achado dum documento no Arquivo Diocesano de Tui de 1752, realizado polo pesquisador Maximino Fernández Sendín, em que se diz "é tradiçom que os habitantes da Granha procedem dos Judeus expulsos por dona Isabel e por don Fernando". Aliás, a presença judaica na zona está confirmada pola existência num monte da paróquia de Campo do topónimo Chão de Judeus (Chan de Xudeus).

Apesar do seu afastamento, a "vigilância" da igreja católica foi-se desdobrando progressivamente na Granha com a abertura dumha capela (desde 1741), umha casa de freiras no Mungidouro ou mesmo um penal da Inquisiçom. Seja como for, em consequência da repressom exercida pola Inquisiçom para punir os cristãos novos impediu, a diferença do caso da comunidade judaica de Belmonte, a conservaçom da fe mosaica nos granhudos, fazendo com que, em certa altura, se perdesse o conhecimento da sua origem judaica.

Porém, os granhudos mantêm costumes ligados com práticas das comunidades de cristãos novos:

Endogamia
Na Granha praticaram a endogamia de grupo até meados do século XX, casando apenas entre eles e nom sendo permitido casamentos fora da Granha. Isto é, os granhudos nom casavam com "cristãos-velhos" e, caso o fizessem, eram excluídos da comunidade. 

Na atualidade seguem a formar umha "tribo" e os seus membros regressam sempre à aldeia para se reunirem, assistindo juntos a todo tipo de acontecimentos como um só grupo. 

Comércio itinerante
A atividade tradicional desenvolvida polos membros desta comunidade nom é a de agricultores-gadeiros desenvolvida maioritariamente polas populações da zona, mas a do comércio, quer como arrieiros, quer como contrabandistas de sal, quer como mercadores de panos, tecidos, fios, café,....  ou mesmo como prestamistas.

Durante séculos os habitantes da Granha, conhecida por isso como "Granha do Sal", dedicaram-se ao contrabando do sal, um produto que era muito caro, escasso e imprescindível para a conservaçom dos alimentos, curtumes e usos industriais. Aliás, entre os séculos XVI-XIX o mercado deste produto era monopólio real, estando taxado com grandes impostos. Portanto o sal era trazido das salinas de Portugal polos granhudos em sacos até os mercados finais. 

A venda de tecidos realizava-se entre os meses de setembro e abril de cada ano, ausentado-se tanto homens quanto mulheres da Granha, ficando criadas ao cargo das casa e crianças. 

A atividade de arrieiros consistia principalmente no transporte e a venda do vinho que compravam no Ribeiro, ligando Ribadávia com os principais portos e rotas do mercado da época.

O comércio itinerante permitia safar o controlo ao que estavam submetidos, nom asistindo os domingos à missa ou nom trabalhando nos sábados, pois ao estarem "de viagem" durante vários meses do ano podiam fazê-lo e mesmo juntar-se com os seus irmãos de religiom para praticar os seus ritos, mormente nas Judiarias do Minho. Além disso, esta ocupaçom permitia-lhes, em casos de ameaça de visita da Inquisiçom, fugir sem provocar suspeitas.

Para o desenvolvimento desta atividade comercial contribuiu grandemente o facto de a Granha se encontrar num local estratégico, ao ser atravessada por diferentes rotas e antigos caminhos que permitiam umha ligaçom fácil com Portugal, Santiago de Compostela e com todos os centros de comércio importantes.

Outra das suas peculiaridades é que os conflitos entre os membros da comunidade foram sempre arranjadas no seio da comunidade sem recorrer à justiça.

A mulher sempre teve um grande protagonismo dentro da estrutura social do grupo, realizando as atividades comerciais em igualdade de condições que o homem. 

A arquitetura do bairro velho da Granha ainda conserva a sua construçom tradicional, caracterizada pola existência de arruamentos compactos com de habitações pequenas que possuem sacadas deitadas sobre as ruelas. Estas características som semelhantes às existentes na Judiaria de Ribadávia e diferenciadas das existentes nas aldeias da zona. 
Bairro velho da Granha - Covelo
Em Salzedo, um dos lugares mais antigos da Granha, existe um prédio datado no ano 1669 que tem geminada umha construçom que, polo seu feitio e características, parece ter sido destinada como Sinagoga. Contrasta a simpleza da sua construçom exterior com a beleza e perfeiçom do seu acabamento interior. 
Vizinhos da Granha entrando na habitaçom anexa ao prédio de 1669
Lintel do prédio de 1669 na Granha
Destacar deste "alpendre", o que parece ter sido o seu uso habitual, que seja acessível seja através de duas portas e que, ocupando a parte fronteira, exista um arco de meio ponto de grandes dimensões. 



Todavia, a inexistência de estudos histórico-arqueológicos especializados impede tirar qualquer outro tipo de conclusom, mas essa é a ideia que paira nos granhudos.

Outra das peculiaridades construtivas que se encontram na Granha é que os espigueiros/hórreos existentes nesta paróquia carecem de cruzes nos seus acabamentos superiores e nos dous únicos casos em que existem, trata-se de acréscimos posteriores.
Os hórreos da Granha nom têm cruzes. Faro de Vigo
Atualmente os habitantes da Granha, após umha vida de mercadores ambulantes, adaptaram-se às novas formas comerciais ao abrigo das grandes concentrações urbanas, fixando-se como mercadores em Vigo, Ponte Vedra e outras vilas e cidades galegas, bem como do exterior (mormente na Venezuela).

Bibliografia utilizada como referência deste post:

5 comentários:

  1. Em Portugal, na vila de Castro Laboreiro, também consta que existe uma comunidade descendente dos judeus que aquando da expulsão pelo reis católicos de fixaram nessa zona por ser na altura um local remoto.
    Tal como em Granha pratica-se ou praticou-se até à bem pouco a endogamia, inclusivamente existe uma divisão entre dois grupos nessa freguesia. Conhece algum estou que fundamente esta teoria?

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    1. Para responder umha questom como a que coloca seria preciso contarmos com um estudo do caso de tipo histórico, arqueológico ou etnográfico que permitisse tirar essa conclussom. Por enquanto, desconheço a existência de comunidades de cristãos-novos nessa vila. Este estudo teria a ver, como no caso da comunidade de Judeus da Granha, com as tradições, atividades económicas,... ou mesmo toponímia existente nessa comunidade. Aliás, a existência de comunidades fechadas endogámicas foi umha prática habitual nas povoações de montanha.
      É possível que existisse esse trânsito de Judeus galegos, já que Melgaço (nom muito longe de Castro Leboreiro) foi um dos portos secos que o rei português João II disponibilizou para a entrada dos refugiados judeus em Portugal logo depois do édito de expulsom espanhol.

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    2. During my childhood, growing up in this remote area, I was made aware of the definite division that existed amongst the two populations of Castro Laboreiro. These people were known as "Rabudos" ( as a boy I believed these people had tails, but in fact it means people of the Rabbi)and thought of as inferior to those who were not Rabudos. As a matter of fact intermarriage between these two groups was not acceptable

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  2. Exatamente o nome dado a esse grupo é de Rabudos. E sim é dito por alguns castrejos que os Rabudos são descendentes dos Judeus.

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  3. Há material suficiente na rede para fazer um post interessante sobre Castro Laboreiro, prezado Caeiro (prezado porque “caro Caeiro” é case uma aliteração)! Material nem mais nem menos rigoroso que o de outros post deste blogue que, a propósito, é ótimo em geral. Encorajamos-te a fazer o post!

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