sábado, 11 de janeiro de 2014

RIBADÁVIA

Vila galega de 5.500 habitantes, centro económico e administrativo da regiom do Ribeiro. Está atravessada polo rio Ávia, pouco antes da sua desembocadura no rio Minho, entre as montanhas da serra do Faro e a do Suído.
Ribadávia
Ribadávia surge como núcleo relevante de populaçom no século XI, sendo capital do Reino da Galiza durante o reinado de Dom Garcia (1065-71). A chegada da corte galega produziu um efeito imediato de expansom da vila, constituindo o seu núcleo. O assentamento real na cidade e a sua situaçom estratégica atraiu umha considerável quantidade de Judeus, atraídos polas possibilidades de negócio. A importância do Reino da Galiza era grande na época, com umhas fronteiras que se estendiam além do Douro, e mesmo com poder de vassalagem sobre o reino muçulmano de Badajoz.

No século XII produz-se um crescimento demográfico e económico ligado com a comercializaçom do vinho do Ribeiro e com a fundaçom dos grandes mosteiros de São Clódio, Melom e Osseira e graças ao foral de 1164, concedido polo rei Fernando II.

Em 1375, por concessom de Henrique II de Trás-Tamara, inicia-se o senhorio de Ribadávia, tornando-se em sede do Adiantado Maior do Reino da Galiza (umha espécie de vice-rei). No alto da cidade acha-se o castelo dos Sarmento, senhores da vila, do que se conservam algumhas ruínas. 

A capital do Ribeiro esteve amuralhada, tal como testemunham ainda restos de panos e algumhas portas que se conservam, como a Porta Nova, a Porta da Vila de Arriba e o postigo Porta Falsa, que afortunadamente safaram da derruba iniciada iniciada em 1832 e que se parou por causa das dificuldades económicas.
Panos remanescente da muralha de Ribadávia. CAEIRO
Nessa altura já contava com umha comunidade judaica, cuja primeira e mais conhecida referência, nom da judiaria mas da presença judaica, é a Crónica de Froissart, escrita nos finais do século XIV, que ressalta a importância que tiveram os Judeus de Ribadávia e o alto preço em vidas que pagaram pola resistência que ofereceram junto com o resto de habitantes em 1386 face o ataque das tropas inglesas do Duque de Lencastre, que assaltou a cidade numha das guerras de libertaçom da Galiza.

Com posterioridade a esta crónica os dados sobre a comunidade judaica de Ribadávia reduzem-se às quantidades pagas em conceito de taxações específicas que a populaçom judaica devia pagar à Coroa e algumhas outras notícias sobre algumha das personagens que lá viveram.

Pola documentaçom existente, sabe-se que o número de famílias hebraicas em Ribadávia situou-se por volta das treze em 1464; sete entre 1472-74; onze em 1749 e quatro em 1482. A estes dados haveria que acrescentar as pessoas nom sujeitas a tributaçom. Na altura do século XV a comunidade judaica de Ribadávia era semelhante à maioria das existentes na Galiza.

Em 1476 os reis católicos ascendem à casa dos Sarmento a Condado em reconhecimento polo labor de Bernardino Peres Sarmento na reconquista. Muitos Judeus encargavam-se entom da gestom dos assuntos financeiros do senhorio e posteriormente do Condado de Ribadávia, especializando-se na administraçom de bens e rendas e em diversos ofícios artesanais. Também destacaram como mercadores de vinho.

A documentaçom existente dos séculos XVI, XVII e XVIII é suficientemente explícita para permitir localizar a Judiaria de Ribadávia. Trata-se de documentos referidos a foros, umha espécie de contratos de arrendamento a longo prazo, ou às vendas de casas propriedade do mosteiro de Santo Domingo. Esses documentos falam na localizaçom de diferentes prédios "na rua da judiaria".

Essa Judiaria de Ribadávia localizava-se entre a praça Maior e a muralha medieval. Porém, nom todos os estudiosos concordam na extensom desta zona. Segundo Leopoldo Meruéndano e Benito Fernández Alonso os Judeus habitavam entre a Porta Nova de Abaixo e a de Arriba, com o passeio correspondente da Madalena, para além dumha zona exterior no bairro dos Ferreiros e da Corredoira. José Luis Lacave situa a Judiaria de Ribadávia na atual rua de Merelhes Caula mas, com base na obra de Meruéndano, estende o bairro judeu "ao espaço que existe entre a Madalena, a muralha e as ruinas do castelo, isto é, às ruas Porta Nova de Arriba, Porta Nova de Abaixo e Travessa da Porta Nova". Esta delimitaçom nom é compartilhada por Samuel Elján, quem admite que a presença judaica em Ribadávia nom era tam grande como para habitar em quase metade da superfície da vila.
Localizaçom da Judiaria de Ribadávia. GoogleEarth
Seja como for, o bairro judeu reconhecido polo concelho de Ribadávia (em roxo) é o que abrange a Rua Merelhes Caula/Judiaria, Praça da Madalena, Rua da Porta Nova de Arriba, Rua da Porta Nova de Abaixo, Travessa da Porta Nova e Praça de Buxám".
Zonas de âmbito judaico de Ribadávia. Eva L. Parguinha
Os arruamentos judaicos de Ribadávia em cor cinza
Do bairro judeu de Ribadávia ainda persiste o traçado medieval das suas longas e estreitas ruas, os seus cantos de ruas e praças, porticadas polas sacadas, e pátios rodeados de fachadas. Como umha continuidade dos prédios, quer polas ruas, quer polas arcadas, a pedra é o elemento presente nesta judiaria. Os mercados judeus localizavam-se nos sotos das casas, evitando destarte a entrada do sol para comodidade dos clientes e para preservar os alimentos. As varandas projetam-se para a rua em proeminentes saintes para proteger os sotos da chuva; de resto, colocavam diante das suas próprias portas lajeados a jeito de plataformas, elevadas uns centímetros por sobre o nível da via a fim de evitar que a humidade do solo penetrasse nos locais.


Rua da Judiaria
O eixo principal do bairro judeu de Ribadávia situava-se por volta da Rua da Judiaria (hoje rua de Merelhes de Caula), que liga a Praça Maior com a praça da Madalena. Esse foi no nome da rua até o século XVII, pois posteriormente foi mudado polo de Rua da Cruz. Porém, na documentaçom, até entrado o século XIX, quando se cita a Rua da Cruz sempre aparece a antiga denominaçom de Rua da Judiaria, o que permite supor que a rua seria mais conhecida por esse segundo nome que polo primeiro. Na atualidade conserva o mesmo traçado e recuperou o nome tradicional juntamente com o de Merelhes Caula.

O lajeado da rua e a proeminência das pedras nas casas contribuem para lhe dar ao seu percorrido umha forte fasquia medieval.
Praça Maior, ao fundo a Rua da Judiaria. Eva L. Parguinha
GoogleMaps
Ao fundo a Praça Maior de Ribadávia. Eva L. Parguinha
CAEIRO
Nesta rua existem lojas de artesanato em cujas montras destacam diferentes elementos ornamentais judaicos.
Eva L. Parguinha
CAEIRO
GoogleMaps
CAEIRO


Praça da Madalena

Eva L. Parguinha
CAEIRO
Eva L. Parguinha
CAEIRO
Pr. da Madalena vista da Pr. de Buxám. CAEIRO

Porta Nova
Arco situado no limite sul da Judiaria e que permite o acesso desde a vila até o rio Minho.
CAEIRO
Na sua aresta direita pode-se constatar a existência dumhas concavidades iguais às existentes na porta da muralha de Melgaço. 
Porta Nova do interior da Judiaria de Ribadávia. GoogleMaps
CAEIRO
Desde o arco da Porta Nova duas ruas penetram na judiaria, a Rua da Porta Nova de Arriba e a Rua da Porta Nova de Abaixo.
Prédio no entroncamento da R. da Porta Nova de Arriba (esq) e Porta Nova de Abaixo (dt).
Eva L. Parguinha


Rua da Porta Nova de Arriba

Dentro da judiaria, na Rua da Porta Nova de Arriba, ainda existem umha casa do século XV e umha porta da fachada doutra da mesma época. Ambas as portas som de arcos de meio ponto realizados com grandes dovelas e na sua ombreira direita possuem concavidades.
CAEIRO



CAEIRO
Prédio no nº20, a única habitaçom que conserva o pátio interior característico das casas judaicas e que ligava todas.


Eva L. Parguinha

CAEIRO
CAEIRO
CAEIRO


Rua da Porta Nova de Abaixo
Rua que discorre paralela à muralha pola sua face interna.


CAEIRO
CAEIRO
À esquerda a Tr. da Porta Nova. CAEIRO
CAEIRO
CAEIRO
CAEIRO
A casa do número 27 da Rua da porta Nova de Abaixo exibe umha estrela de David, com varandada de madeira.
Eva L. Parguinha
CAEIRO


Travessa da Porta Nova
CAEIRO
Nesta rua umha placa lembra o local de nascimento da soprano Ángeles Gulin (1939-2002) particularmente ligada às obras de juventude de G. Verdi.
CAEIRO


Porta Falsa
CAEIRO
Porta Falsa vista de dentro da Judiaria. Na dt. a Pr. de Buxàm. CAEIRO

Pr. de Buxám, à esq. a R. da Porta Nova de Abaixo. CAEIRO


Extramuros
Rua que discorre paralela à face exterior da muralha.
CAEIRO
CAEIRO
CAEIRO
CAEIRO
CAEIRO
GoogleMaps

Sinagoga de Ribadávia


Na atualidade existem duas hipóteses sobre a localizaçom da Esnoga de Ribadávia. Por um lado, com base na documentaçom existente, esta localizar-se-ia num prédio situado na parcela número 13 da Rua da Judiaria. 
Prédio do nº13 da Rua da Judiaria de Ribadávia. GoogleMaps
Por outro lado, a partir das descobertas realizadas em diferentes edificações da Judiaria, essa Esnoga estaria localizada no número 7 da Praça da Madalena
Eva L. Parguinha
GoogleMaps
Eva L. Parguinha
Eva L. Parguinha
No interior do atual prédio e por trás da sua fachada do século XVI encontram-se uns muros do sécs. XII-XIII com arcadas e contrafortes románicos. Segundo o historiador Xosé Ramón Estévez Pérez o capitel deste prédio está ligado com o mundo judaico, já que a existência de quatro pinhas nos laterais lembrariam as colunas de Salomom, a margarida formando umha estrela e os acantos de sete braços como os candelabros judaicos.
Capitel pertencente ao prédio onde se acha esteve a Sinagoga. Eva L. Parguinha
Além disto, encontrou-se umha cisterna no primeiro andar destinado a apanhar a água da chuva e que posteriormente cai até a gárgola que poderia ter sido utilizada nos banhos rituais judaicos.
Eva L. Parguinha
Na imagem, porta de acesso ao pátio na zona posterior da parcela na que se acha que foi o pátio de reuniões da sinagoga (nº3 da Travessa da Porta Nova). Cabe referir a semelhança com a porta da possível sinagoga de Monforte de Lemos.

Também existe a hipótese da existência dum túnel que ligaria esta parcela com o rio e que poderia ter sido utilizado polos judeus para escapar das perseguições. A localizaçom da parcela permite também a colocaçom dumha sala de oraçom orientada para o leste e com as dimensões acaídas para os rituais judaicos.

Na atualidade, como muitos elementos do património judaico na Portugaliza, o piso térreo da antiga sinagoga de Ribadávia alberga um negócio de hostelaria.
CAEIRO
 Interior do prédio da Sinagoga de Ribadávia. CAEIRO
Depois do édito de expulsom, muitos dos Judeus que moravam em Ribadávia converteram-se ao cristianismo para poder conservar os seus bens, além de serem considerados cidadãos de pleno direito. Alguns mantiveram o culto judaico em secreto, sendo mostra da repressom desdobrada contra eles  famoso Processo do Malsim em 1606-10, enquadrado nas várias ocasiões que Ribadávia foi objeto de atividade da Inquisiçom contra praticantes em secreto do judaísmo.

Outros que nom renunciaram à sua religiom assentaram-se provisoriamente em Portugal, regressando a Ribadávia quando as perseguições recuaram, mas fugindo periodicamente para Portugal durante os períodos em que os representantes da inquisiçom realizavam as suas inspeções pola regiom do Ribeiro.
Prédio onde sediou a Inquisiçom de Ribadávia. Eva L. Parguinha
Para além de Portugal, a fim de safar do Santo Ofício outros membros da Judiaria de Ribadávia assentaram-se em zonas afastadas da Serra do Suído (dando origem à comunidade judaica da Granha) ou nos vales dos rios Ávia e Arenteiro.

Tanto cristãos quanto Judeus contribuíram para a pujança económica do Ribeiro, que chegou ao seu nível mais alto nos séculos XV e XVII, sempre tomando como base a comercializaçom do vinho, do qual a Judiaria foi mais proprietária do que cultivadora direta. Para além de mercadores, os judeus exerceram ofícios artesanato, entre os quais os de sapateiro, alfaiate, ferreiro, talho, ourives,... 

Para reivindicar o passado judeu, desde 1989 celebra-se a Festa da Istória, com as pessoas vestidas de época. Esta celebraçom já aparece citada em documentos do século XVIII, mas em 1868 deixou de celebrar-se.

Sem comentários:

Enviar um comentário