domingo, 29 de dezembro de 2013

PORTO

Porto, a capital do Norte de Portugal, é umha cidade com cerca de 238.000 habitantes cuja metrópole, constituída polos municípios adjacentes que formam entre si um único conglomerado urbano, conta com cerca de 1,3 milhões de habitantes, o que a torna a maior do noroeste peninsular.

É a cidade que deu nome a Portugal, quando se designava Portus Cale, vindo mais tarde a tornar-se a capital do Condado Portucalense. Devido ao seu caráter comercial atraiu bem cedo mercadores judeus.

Durante a Idade Média no Porto houve três judiarias: a Judiaria Velha, a Judiaria de Monchique e a Judiaria Nova do Olival que contaram, possivelmente, quatro sinagogas.
Localizaçom das Judiarias do Porto. GoogleEarth
Judiaria Velha

A Judiaria Velha ficava situada na parte alta do Morro da Sé, dentro da "cerca velha", também chamada "muralha suévica", ali por perto da Rua da Aldas (hoje Rua do Arco de Santa Ana) e perto das atuais Rua Escura e Largo do Colégio, onde ainda se pode apreciar a planta medieval das ruas. 


Morro da Sé ou da Pena Ventosa, local da Judiaria Velha
R. do Arco de Santa Ana

Pouco se sabe dela, nem do ponto de vista arqueológico, nem do ponto de vista documental, mas que foi o núcleo mais antigo da fixaçom de comunidades judaicas (século XIII). A “Comuna dos judeus” era, por certo, um agrupamento social de artesãos e comerciantes, tendo, sem dúvida, um pequeno edifício estruturalmente adaptado como sinagoga. 
Localizaçom da Judiaria Velha no alto do Morro da Sé do Porto. Foto: Wikipedia
Todavia, os comerciantes e artesãos judeus estendiam a sua atividade polas ruelas do morro até à baixa da Ribeira e a Rua da Alfândega, junto ao rio Douro e perto da Basílica de São Francisco, onde estava o ancoradouro dos barcos e onde se movimentava o comércio e eles tinham as suas lojas lado a lado com cristãos, sem que haja notícias de tensões entre os dous grupos. Por um aforamento de 1386, sabe-se, de facto, que os Judeus tinham uma sinagoga doméstica na loja do marinheiro Lourenço Peres, situada na Rua da Munhata ou Minhota entre os conventos de S. Domingos e de S. Francisco (agora Rua do Comércio).


R. do Comércio do Porto
Como referido, seria esta a chamada “Judiaria de Baixo” e era ali a segunda sinagoga, que ficava por baixo da encosta da Vitória, onde, mais tarde, se construíu a Judiaria do Olival e a sua sinagoga.

Judiaria de Monchique

Na zona fluvial de Monchique (freguesia atual de Miragaia), extramuros, formou-se posteriormente umha outra judiaria, ocupando umha área que ia das Virtudes até ao Convento de Monchique, Rua da Bandeirinha e Largo do Viriato. 
Vista da zona de Monchique/Miragaia
O facto de os Judeus se terem deslocado para este local foi devido a que, a partir do século XIII foi proibido alugar ou vender-lhes propriedades dentro da Cividade onde se achava a Judiaria Velha.

Nessa zona ainda persistem, ligados à presença dos Judeus, vários topónimos: Monte dos Judeus, Escadas do Monte dos Judeus, Largo dos Judeus ou Rua do Monte dos Judeus. 
Judiaria de Monchique - Porto. GoogleMaps


GoogleMaps


Escadas do Monte dos Judeus



Imagens de A vida em Fotos

É nesta zona que, por volta de 1380, o rabino-mor do rei, D. Fernando Don Yahuda Ibn Maner, funda a terceira sinagoga do Porto.  O local da antiga sinagoga é desde o 1535 o Convento das Clarissas e a capela do Convento da Madre de Deus de Monchique.

Desta sinagoga (aberta entre 1380-86) existe um documento notabilíssimo, que é a inscriçom de inauguraçom, a maior inscriçom conhecida dos judeus em Portugal e que foi encontrada em 1826, agora exibida no Museu Arqueológico do Carmo de Lisboa.


Inscriçom encontrada no local da sinagoga de Monchique
Na lápide, encontrada parede ocidental da capela do referido convento, pode-se ler:

«1. Alguém poderá dizer: Como nom foi resguardada umha casa de tanta nomeada no interior dumha muralha?
2. Mas esse bem sabe que tenho um conhecido que é reconhecido da alta estirpe.
3. Ele é que me guarda, pois me declara sem sobra de dúvida: Eu sou muralha.
4. O maior entre os Judeus, o mais forte dos heróis, e que se levantam os chefes ali está ele de pé.
5. Benfeitor do seu povo, servo de Deus na sua integridade, edificou umha casa ao seu nome de pedras de talha.
6. Para o Rei ele é segundo, à cabeça é controlado, pola sua grandeza e na presença de reis ele se ergue.
7. Ele é o Rabi Don Yehudah ben Maner, luz de Judá e a ele compete autoridade.

8. Por ordem do Rabi, que ele viva, Don Joseph ibn Arieh, encarregado e chefe para a tarefa».


Extinto convento de Monchique





Imagens de A vida em Fotos
Muito perto da referida sinagoga, no lugar que hoje chamam “Monte dos Judeus” é que teria existido um cemitério judaico (Maqbar). Porém, nom existe unanimidade no tocante à sua localizaçom. Enquanto uns historiadores o situam no local do atual Palácio das Sereias/Mamudas no fundo da Rua Bandeirinha, outros acham que terá sido muito para oriente nos socalcos do Jardim Municipal do Horto das Virtudes, próximo da Igreja de S. Pedro de Miragaia. 


Monte dos Judeus ou Morro de Monchique
A existência dum curso de água, o Rio Frio, que passa polo Horto, abastecendo a Fonte das Virtudes, indo depois desaguar no Rio Douro, poderá ter sido um apoio logístico para os funerais judaicos, devido à obrigatoriedade religiosa de lavar os corpos dos falecidos antes de se proceder ao enterramento, um ritual de purificaçom que no idioma hebraico se designa de Tahara.



Judiaria Nova do Olival

Em 1386, o rei D. João I mandou instalar os Judeus dispersos polo Porto num espaço intramuros, justificando a medida por questões de segurança (a eminência das guerras com Espanha) e quando o espaço das antigas judiarias se tornara escasso para conter todos os Judeus da cidade. D. João mandou a Câmara do Porto assinalar um lugar apartado dentro dos muros da cidade para construir umha nova judiaria, sendo escolhido o Campo do Olival. 

O bairro judeu ocupava um terreno de 30 courelas e por ele se pagavam anualmente 200 maravedis velhos, tal como estipulava o contrato celebrado com a Câmara a 2 de junho de 1388. O dirigismo subjacente ao processo de urbanizaçom do Campo do Olival, com complemento programático e cronológico na abertura da R. Formosa, fica bem patente no loteamento da R. de S. Miguel, onde os Judeus recebem trinta quadrelas, certamente correspondentes aos trinta lotes ainda perceptíveis no cadastro atual.

Em pouco tempo e de forma muito racional, os Judeus urbanizaram umha zona erma e economicamente desinteressante, edificando eles a sua sinagoga e casas de morada ao longo dumha extensa artéria em L, que se denominou Rua da Judiaria Nova do Olival, pois só anos mais tarde é que se rasgaria a Rua Nova ou Formosa, depois Rua Nova dos Ingleses (atualmente Rua Infante D. Henrique) entre o Convento de S. Francisco e a desembocadura da Rua dos Mercadores, por norma considerada como o primeiro projeto urbanístico moderno do Porto.

A Judiaria do Olival ocupava o ângulo noroeste do intramuros era delimitada por dous eixos urbanos principais (R. de S. Miguel de Cima e o caminho que de S. Domingos vai para Miragaia), que garantiam o essencial das necessidades de circulaçom nos sentidos N-S e L-O. Qualquer umha delas terminava numha das portas da muralha fernandina. 

Maqueta da Judiaria do Olival do Porto. Wikipedia
Esta judiaria construía um autêntico gueto, o que permita controlar a movimentaçom dos Judeus. Lá os Judeus tinham liberdade de açom na cidade, comprando e vendendo, mas estavam obrigados a recolher à judiaria à noite, ao toque de Trindades, na torre da porta do Olival. Segundo o estatuto de “gente de naçom” ou “os meus judeus”, como diziam entom os reis portugueses, a comunidade contava com oficiais próprios, livremente eleitos, sendo a Comuna dos Judeus umha alternativa étnica à Câmara dos Cristãos, uma espécie de concelho dentro do concelho. 


A Judiaria Nova do Olival situava-se no espaço atual do quarteirom da Vitória, nas ruas que hoje rodeiam a igreja de Nossa Senhora da Vitória, entre o Mosteiro de São Bento e a Rua de Belmonte.

Arruamentos da Judiaria do Olival do Porto. GoogleMaps
Este bairro judeu desenvolvia-se em torno dum eixo principal (norte-sul) constituído pola Rua de S. Miguel (que hoje corresponde às ruas de S. Bento da Vitória e de S. Miguel), em torno do qual se abriam travessas perpendiculares, incluindo também a atual R. das Taipas. 
R. S. Bento da Vitória


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                                          Travessa de São Bento                                                             CAEIRO


                     Tr. de São Bento vista da R. dos Taipas               CAEIRO
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R. S. Miguel da Vitória
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Rua das Taipas

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Travessa das Taipas

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Era um burgo dentro do burgo, limitado a norte por uma viela que seguia para as barreiras, ficando no seu exterior o "outão" e o forno do Olival. Tinha duas portas, umha à entrada voltada para o Largo da Porta do Olival (atual R. de São Bento da Vitória) e umha outra de saída situada nas Escadas da Esnoga/Sinagoga (hoje Escadas da Vitória) e onde se colocou umha placa que lembra esse nome.


Escadas da Esnoga



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Escadas da Esnoga do Porto. José Paulo Andrade
A Vida em Fotos
Entroncamento das Escadas na R. Vitória. A Vida em Fotos

A Sinagoga estava situada no topo das Escadas da Vitória. Este local veio depois a ser ocupado pola Igreja de Nossa Senhora da Vitória. 


Igreja de Nossa Senhora da Vitória alegadamente no local da antiga sinagoga. CAEIRO
A igreja vista da Rua da Vitória. A Vida em Fotos
Segundo umha hipótese, um pouco mais a norte, no Passeio das Virtudes, localizavar-se-ia o cemitério judaico do Porto.


Os judeus aqui viveram e prosperaram, tendo assimilado os Hebreus expulsos dos reinos de Espanha. Assim, em 1482 acentua-se a sublocaçom das casas e aforam-se edifícios do lado exterior da porta da judiaria. Aliás, em 1492, quando o édito de expulsom dos Judeus, o rei português D. João II negociou com o rabino Isaac Aboab, rabino-mor (gaon) de Castela, o estabelecimento de trinta famílias de Judeus expulsos na Judiaria do Olival, dando origem às às trinta casas da courela dos judeus, como informa o médico Emanuel Aboab na sua Nomologia.

O édito de expulsom de D. Manuel I de dezembro de 1496 ditou o fim da Judiaria e muitos Judeus abandonaram o reino, enquanto outros se convertiam ao cristianismo. Estes passaram a designar-se cristãos-novos. 

Quer porque muitos abandonaram as suas casas, quer porque os que se converteram nom queriam ficar ligados ao passado judaico, o facto é que a zona desta antiga judiaria ficou quase deserta por volta do século XVI. Entom as casas desabitadas foram entregues a cristãos velhos. Desta Judiaria é oriundo o célebre filósofo Uriel da Costa, que viveu na cidade de Amsterdám (Holanda).

Polas cartas régias de 1534 e 1539, o rei ordena que os cristãos-novos que se tinham fixado na praça da Ribeira ou noutros locais da cidade voltassem à rua de São Miguel (designaçom que incluía as atuais ruas de São Bento da Vitória e de São Miguel). 

No espaço das trinta casas da courela dos judeus ergueu-se, no século XVI-XVII, o Mosteiro de São Bento da Vitória, um mosteiro beneditino. Na padieira da portaria do mosteiro foi colocada uma inscrição latina: "Quae fuerat sedes tenebrarum est regia solis. Expulsis tenebris sol benedictus ovat". Tal levou muito historiadores a suporem tivesse sido aqui a sinagoga. Atualmente crê-se que seria na igreja paroquial da Vitória. 

Posteriormente, nos seus muros foi colocado um Memorial Historiado e Litúrgico de mármore, em língua hebraica e portuguesa, em recordaçom dos Judeus expulsos ou que foram obrigados a se converter ao cristianismo.
A Vida em Fotos
Sabe-se que muitos cristãos-novos continuaram a praticar o judaísmo clandestinamente, no entanto, devido ao seu velho e consistente passado judaico e devido a essa herança estrutural “marrana” do Porto, inconsciente mas pressentida e intuitiva, a Inquisiçom apenas funcionou no Porto durante dous anos e só realizou um auto-de-fé porque o povo do Porto nom a aceitou, nom denuniando aos que se esconderam e acolhendo os que passaram a ser cristãos-novos.


Nos princípios do século XVII, mercadores com as suas lojas, gente de prol, mais tarde os magistrados e funcionários do Tribunal da Relaçom passaram a viver na Rua da Judiaria Nova (agora denominada de S. Miguel, mais extensa que a atual, porque abrangia também a Rua de S. Bento da Vitória de hoje).



Quando em 1920 o militar Artur Carlos de Barros Basto tentou a retomada do judaísmo entre os marranos, Porto tornou-se no centro das suas atividades. A congregaçom "Mekor Haim" foi estabelecida em 1927. Em 1929 abriu-se a Sinagoga Kadoorie, albergando tanto a congregaçom quanto o seminário de estudos religiosos. O templo da comunidade israelita do Porto acha-se no bairro de Boavista, no nº. 340 da R. Guerra Junqueiro. Na década de 1970 a comunidade judaica do Porto contava com 100 pessoas.


Sinagoga Kaddorie Mekor Haim no Porto
Em 2003, no decurso dumhas obras numha casa da Rua de S. Miguel (n.ºs 9-11) ter-se-á descoberto um Hejal/Ehal (arca santa, ou Aron hakodesh o elemento central dumha sinagoga), onde se guardam os rolos da Lei (Torá), por detrás dumha parede dupla desse prédio. Este armário em nicha foi descoberto após abater umha parede falsa no lado oriental da casa.


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O armário judaico foi identificado por arqueólogos e historiadores da Faculdade de Letras da Universidade do Porto como um dos quatro existentes em Portugal, datando de finais do século XVI ou inícios do século XVII. Crê-se ser esta a sinagoga clandestina referida polo médico Emanuel Aboab na sua Nomologia, publicada em Amesterdão em 1629. 

Desde 2012 o imóvel do achado é considerado Imóvel de Interesse Público, o que nom impede que albergue o Lar e Centro de Dia Nossa Senhora da Vitória.

6 comentários:

  1. Excelente trabalho para conhecer melhor a história dos judeus no Porto.

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  2. O artigo está excelente, mas porque raio o amigo não escreve em Português correcto, e inventa essa de substituir "ão" por "om"? Não me diga que é daqueles que querem a «independência do Norte» por causa das questões futebolísticas...

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  3. É que o autor deste texto não vive em Portugal, diz o perfil que vive em Otiepsoc, Galiza e, por isso, terá dificuldades na ortografia.
    Mas não deixa de ser um excelente artigo.

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    1. Antes de mais, agradeço o seu comentário. O uso de -çom/-tom/-xom em vez de -ção/-tão/-xão, umha em vez de uma ou polo/a em vez de pelo/a deve-se a que o blogue está redigido em galego, isto é, no português da Galiza.

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  4. E como o importante é a divulgação da história dos judeus no Porto, a questão da linguagem neste mundo globalizado é o que menos preocupa os que, por bem, apenas pretendem melhorar e relembrar os conhecimentos que possuem......e não misturem os questom futebolística. ......

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  5. E como o importante é a divulgação da história dos judeus no Porto, a questão da linguagem neste mundo globalizado é o que menos preocupa os que, por bem, apenas pretendem melhorar e relembrar os conhecimentos que possuem......e não misturem os questom futebolística. ......

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