quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

BELMONTE

Vila portuguesa localizada junto da Serra da Estrela, regiom da Beira, com cerca de 3.100 habitantes.

Belmonte destaca-se pola sua excecional posiçom estratégica, nom só pola sua altitude, mas também como ponto de convergência de importantes vias antigas e outros elementos (riqueza mineral, recursos hídricos,...) que contribuiram para que, desde tempos imemoriais, populações se tenham estabelecido nesta vila.

Por todo o município registam-se vestígios pré e proto-históricos, romanos e medievais, que provam a preferência das comunidades primitivas em se estabelecerem neste espaço. Os Judeus também nom devem ter ficado indiferentes a estas condições, polo que a sua presença em Belmonte deve recuar bastante no tempo.

Apesar dos escassos conhecimentos acerca da primitiva presença judaica em Belmonte, o contributo desta comunidade para a história da Vila é indiscutível, pola sua presença ainda na atualidade e polos vestígios deixados por comunidades anteriores.

Devido à escassez de referências documentais e de vestígios, nom se conhece a data exata do estabelecimento dos Judeus em Belmonte, no entanto, eles som citados no foral outorgado por D. Sancho I em 1199, o que poderá ser já um sinal da sua presença. É de referir que a passagem onde se menciona a palavra “Judeus”, repete-se noutros forais atribuídos na época, em vários locais da Beira Baixa, adaptados do foral de Ávila; “ testemunhamos e para sempre confirmamos que todo o que penhorar mercadores ou viajantes cristãos, judeus ou mouros, a não ser que seja fiador ou devedor, todo o que isto fizer, pague ao Bispo 60 soldos e dará em dobro o gado que tomar ao seu dono”. Nom se sabe se este trecho comprova a existência, já no final do século XII, de Judeus em Belmonte, no entanto, por essa altura, sabe-se da existência de populações judaicas na Covilhã, Guarda, Gouveia, Trancoso e outras terras da Beira. Por isso, é provável que Belmonte tivesse já a sua comunidade de Judeus.

Após a concessom do foral e o reconhecimento da entrega do senhorio da Vila ao Bispado de Coimbra, fomentou-se o crescimento do primitivo núcleo urbano de Belmonte, procedendo-se também à construçom do castelo. A Vila, aproveitando a disposiçom topográfica do espaço, expande-se para poente, em torno da atual Rua Direita, e para nascente, em torno da Igreja de S. Tiago e de Sta. Maria (hoje desaparecida).

Em 1910, aquando da demoliçom da Igreja de S. Francisco (antiga Igreja do Espírito Santo e Misericórdia), no atual Largo António José de Almeida, Francisco Tavares Proença Júnior identificou umha lápide com caracteres hebraicos inscritos, com a seguinte legenda; “E Adonai está no seu templo sagrado, emudece perante Ele toda a sua terra” (Livro de Hababuc, 2.20), que possivelmente pertenceria à torça da porta principal da primitiva sinagoga e cuja dataçom remonta a 1297.

O facto de haver já umha sinagoga nessa altura, reflete a permanência em Belmonte dumha comunidade judaica numerosa, bem estabelecida e organizada.

Portanto é ponto assente que nom teriam sido os Judeus expulsos de Espanha em 1492 que fundaram a comunidade judaica de Belmonte, embora, pola proximidade da fronteira, a tivessem reforçado.

Relativamente à localizaçom da judiaria, apesar de nom haver certezas, devido à escassez de fontes histórico-arqueológicas, é a toponímia, com nomes como Rua da Judiaria, Bairro de Marrocos, que auxilia na sua localizaçom espacial. A Judiaria de Belmonte poderia situar-se em torno das atuais Rua Direita (antiga Rua Direita de Marrocos) e Rua da Fonte da Rosa (antes Rua da Judiaria e Rua de Marrocos), no interior do espaço urbano amuralhado.



A área compreendida por estas ruas e pola Rua da Sé (que dá acesso hoje à Igreja Matriz) é identificada como a zona Medieval da vila. A norte da Rua Direita existe umha antiga praça que mantém basicamente a estrutura que de velho tinha, com casinhas feitas em granito e cruciformes nas ombreiras. A comunicaçom entre estas artérias principais faz-se ainda por pequenas vielas e guetos onde teriam vivido outrora Judeus, mouros e homiziados. 


Casa na Judiaria de Belmonte. Foto: UM JEITO MANSO
A localizaçom da possível sinagoga é ainda desconhecida, pois a referida situar-se-ia demasiado longe da primitiva judiaria, e num local que somente foi ocupado a partir do séc. XV. Com o Édito de Expulsom de 1496 a Sinagoga de Belmonte foi transformada em templo religioso (na Igreja do Espírito Santo, culto bastante frequente na época). Alguns elementos arquitectónicos manuelinos provenientes da Igreja, como umha pia batismal, reforçam a ideia da transformaçom da sinagoga em templo religioso por essa altura.

A sinagoga era o centro da comunidade judaica, funcionando como templo, tribunal e escola. Os açougues, fornos, lagares, entre outros equipamentos, eram também indispensáveis numha judiaria. Quanto ao cemitério, desconhece-se a sua localizaçom, mas seria, com certeza, fora do limite amuralhado.

É nos séculos XIV e XV, devido ao crescimento económico, demográfico e urbano, que Belmonte começa a ampliar o seu espaço urbano para poente, estruturando-se em torno do Largo Afonso Costa, Praça da República, Rua 1º de Maio, Rua do Inverno, Rua Nossa Senhora de Esperança, Rua Pedro Álvares Cabral, e Largo António José de Almeida, local conhecido como Devesa, onde se realizariam as feiras e mercados.

De facto, o espaço situado entre o Largo Afonso Costa e o Largo António José de Almeida era um espaço de grande atividade comercial e artesanal, a que os Judeus nom teriam sido alheios, estabelecendo aqui um segundo núcleo habitacional. Além disso, a comunidade local de Belmonte, por esta altura, deve ter sido engrossada por Judeus vindos de Espanha, após o Édito de Expulsom espanhol de 1492. Nesta altura, teria mais lógica, a fundaçom dumha sinagoga no Largo António José de Almeida, pois estava mais perto dum novo centro de presença judaica.

No entanto, estes locais nom estariam totalmente demarcados, havendo seguramente umha espécie de coabitaçom dos habitantes de Belmonte. Apesar de poder haver arruamentos estabelecidos e pré-definidos, os Judeus poderiam, provavelmente, fixar-se de forma espontânea e livre entre a populaçom cristã.

Em dezembro de 1496 é assinado o decreto de expulsom dos Judeus em Portugal por D. Manuel que irá mudar radicalmente a situaçom da comunidade judaica. Assim, todos os Judeus som obrigados a abandonar Portugal num prazo de 10 meses, no entanto, D. Manuel nom estava interessado na partida dos Judeus, por isso, o prazo alargado de expulsom e as conversões à força. Os Judeus exerciam bastante influência em diversos campos: económico, político, social e cultural, destacando-se polas atividades mercantis, artesanais, usurárias e, por isso, a inconveniência na sua expulsom.

Em Belmonte, o pagamento da judenga, em 1496, confirma que os Judeus continuavam a viver na localidade, mas com o decreto de expulsom de D. Manuel e o estabelecimento da Inquisiçom em 1536 muitos Judeus devem ter fugido. Os que ficaram, praticavam a sua religiom em segredo. Assim, Belmonte nunca terá sofrido um abandono total dos Judeus.

Na década de 1920 Samuel Schwarz, um engenheiro de origem judaico-polaca que realizava trabalhos na zona, detetou a existência de judeus em Belmonte; “uma comunidade bastante demarcada da comunidade católica, conservando práticas, usos e costumes muito característicos que teimam em manterse”.

Depois de séculos de resistência e de organizaçom judaica em segredo, findas as perseguições da época da inquisiçom e terminados os processos de integraçom católica que diluíram a totalidade das muitas comunidades existentes na sociedade católica portuguesa, veio a descobrir-se que em Belmonte estavam vivas as tradições, a organizaçom e a estrutura religiosa dos últimos Judeus secretos de Portugal, que continuaram a casar-se apenas entre si durante séculos e expulsando da comunidade a quem quebrar esta norma.

Logo depois da "descoberta", para dar conta do seu encontro com os criptojudeus de Belmonte Schwarz escreveu em 1925 "Cristãos-Novos em Portugal no século XX", publicada como separata da revista "Arqueologia e História" da Associação de Arqueólogos Portugueses. Ele fez esforços para que os critojudeus de Belmonte regressassem oficialmente ao Judaismo. Algumhas organizações judaicas, entre as quais a Alliance Israélite Universelle e pessoas individuais como Cecil Roth e Lucien Wolf uniram-se a esses esforços com entusiasmo.

Os Judeus de Belmonte constituem a última comunidade peninsular de origem criptojudaica a sobreviver enquanto tal e subsistir ainda hoje com unidade, possuindo sinagoga, rabino e cemitério próprio. Tem igualmente uma direçom comunitária.

A importância da comunidade judaica de Belmonte deve-se mais à originalidade dumha Resistência decorrida ao longo dos séculos do que ao seu peso demográfico ao longo da história (na atualidade som cerca de 200 pessoas, quase 10% dos habitantes da vila). A onomástica presente na vila é clara: existem os Sousa, Dias, Henriques, Fernandes, Mendes, Diogo, Rodrigues, etc.


Depois de tempos de ocultaçom religiosa, a atual comunidade judaica de Belmonte une esforços no seu Resgate, na sua reconversom de cristãos-novos ou marranos ao judaísmo puro, visto que anos de convívio com os cristãos corromperam algumas das suas práticas judaicas. Este regresso apenas teve lugar na década de 1970, depois de a comunidade estabelecer contato com os Judeus de Israel.

A comunidade de Belmonte cumpre hoje os principais ritos religiosos, alguns dos quais desapareceram da memória coletiva belmontense. Outros foram secularmente cumpridos, embora por vezes fortemente deturpados. É necessário entender que esta comunidade se tornou secreta durante séculos sem qualquer tipo de contato com o judaísmo exterior.



Assim, atualmente o ciclo litúrgico anual dos Judeus de Belmonte compreende o Dia do Perdom (Yom Kippur), a Festa dos Tabernáculos (Sukot), a Alegria da Lei (Simhat Torah), a celebraçom da Rainha Ester (Purim), a Santa Festa (Pessah) e a Festa das Colheitas (Sabuot). Para compreender as transfigurações tornadas evidentes polo isolamento secular está o caso da Hanukah. Esquecida há séculos, foi substituída pola cerimónia do Natalinho. Interrogados sobre o seu significado, os Judeus belmontenses diziam que se celebrava o nascimento do Santo Moisés. Nas últimas décadas a festa acabava por coincidir com o Natal dos cristãos. Curiosos relatos como este podem ser analisados no livro de Maria Antonieta Garcia intitulado "Os Judeus de Belmonte - Os Caminhos da Memória".

Já que as fontes documentais e os vestígios som escassos, som os motivos cruciformes ainda visíveis, que podem fornecer algumhas informações acerca da ocupaçom espacial judaica em Belmonte. No decurso do levantamento dos elementos patrimoniais efectuado pelo Gabinete Técnico Local (GTL), que elaborou o Plano de Salvaguarda da Vila, foi dada especial atençom às cruzes presentes nalgumhas ombreiras de casas, polo que foi feito o seu inventário, assim como o seu decalque e registo fotográfico.
Cruciforme de Belmonte. Foto: Carlos Baptista
Numha primeira análise os motivos cruciformes identificados nom som muito abundantes, porque alguns foram destruídos e outros poderám encontrar-se cobertos com os revestimentos modernos das casas. Além dos motivos cruciformes, registam-se ainda algumas datas e observa-se também a presença de casas com portas duplas e outros vestígios que reflectem o secretismo dos cultos.

No núcleo mais antigo os motivos cruciformes que som ainda visíveis nos nº96, 108 do Largo da Rua Direita, nos numeros 468, 470, 484 e 455 da Rua Fonte da Rosa e no nº137 da Travessa da Fonte da Rosa.

No segundo núcleo observam-se motivos cruciformes no nº31 do Largo de Santarém (nº31), no nº51 da Rua do Inverno (muitas vezes chamada depreciativamente como Rua do Inferno quando nela habitavam membros da comunidade judaica), nº56 da Rua 1º de Maio, nº90 da Travessa do Correio e nº140 da Rua 25 de Abril.

As cruzes som geralmente simples, apresentando algumhas hastes nas pontas. O seu tamanho varia entre os 6 e os 25,5 cm. O traço de gravaçom é geralmente muito irregular e tosco, variando dos 0,4 aos 2,5 cm. Cabe referir também que muitas destas cruzes aparecem associadas a portas biseladas, assim como a casas com características comerciais.

Existem também referências à existência de outros motivos cruciformes nas casas n.º 97 e n.º 107 (Rua Direita), assim como na n.º 483 e 486 (Rua Fonte da Rosa). O conjunto de casas formado pelos n.os 106, 107, 108, 109 e 110 teriam ligaçom interna entre si, de modo a poderem servir de escapatória, caso fossem detectados nas suas práticas. As casas n.º 102 e 103 e o n.º 138 também teriam ligaçom interna entre si. Nas traseiras do edifício n.º 138 é possível observar umha porta entaipada que daria com outro edifício, hoje em ruínas. Na Rua Pedro Álvares Cabral som também referidas cruzes em alguns edifícios.

Cruciforme identificado em Belmonte. Foto: UM JEITO MANSO
Em Belmonte registaram-se também cruzes em afloramentos rochosos, talvez com a intençom de demarcar espaços e no Lagar da Fontinha, aí em razoável quantidade.

De referir, no entanto, que a existência de estes motivos cruciformes, que podem estar associados a datas e outros anagramas, gravados nas ombreiras de habitações e outros espaços públicos (fontes, moinhos, etc), deve ser compreendida como um elemento de cristianizaçom do local. Nem sempre a gravaçom dum elemento cruciforme deve ser entendida como a marcaçom dum espaço de ocupaçom judaica. Assim como nom se deve entender todas as portas biseladas e habitações com portas destinadas a local de comércio como locais de judeus.

Todos estes elementos constituem vestígios de vivências, polo que a sua proteçom é indispensável para a preservaçom da memória coletiva. Ameaçados pola erosom, abandono, reconstruções do edificado e por ações humanas, os vestígios da judiaria de Belmonte som já escassos. 

Em 1989 a Comunidade Judaica de Belmonte é reconhecida oficialmente e em 1996 inaugura a Sinagoga “Beit Eliahu” (Filho de Elias) precisamente na Rua Fonte Rosa, umha das ruas da antiga judiaria. Também o cemitério judaico foi aberto em 2001. 
Sinagoga Beit Eliahu de Belmonte.
Desde 2005 está igualmente aberto ao público o Museu Judaico (único em Portugal) e Centro de Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues que retrata a história da presença sefardita em Portugal, usos, costumes e que integra um memorial sobre as últimas da inquisiçom.

Documento elaborado a partir da comunicaçom apresentada pola Dra. Elisabete Martins Robalo em parceria com o Arquiteto Carlos Figueiredo nas I Jornadas de Património Judaico sob o título "Judiaria de Belmonte - Avaliação e reflexão sobre processos de reabilitação".

Clique aqui para conferir mais informações sobre a Judiaria e os Judeus de Belmonte 

Sem comentários:

Enviar um comentário