quinta-feira, 28 de novembro de 2013

LEIRIA

Cidade portuguesa situada na regiom da Beira, com quase 95.500 habitantes.


Fundada por D. Afonso Henriques, em 1135, Leiria começou por se afirmar num território até aí controlado polos Árabes. A cidade foi brevemente retomada polos Mouros em 1137, e mais tarde em 1140. Em 1142, Afonso Henriques reconquistou Leiria, sendo desse ano o primeiro foral (carta de direitos feudais), atribuído para estimular a colonizaçom da área.

A cidade desenvolveu-se no sopé da colina, banhada polo rio Lis e espalhando-se de acordo com a estrutura típica de cidades medievais. Menos de cem anos depois da "reconquista", já existem referências à presença judaica neste centro urbano que se encontrava devidamente muralhado e dominado por um castelo. A primeira referência documental a um judeu de Leiria é datada de 1219, um tal Jucefe de Leirena.

O primeiro assentamento de Judeus em Leiria surgiu num sítio que começou por ser marginal à urbe fortificada, acompanhando o caminho de acesso às Portas do Sol da povoaçom. Caminho que evoluirá para Rua Direita.

A partir do séc. XIII a populaçom judaica de Leiria foi sempre crescendo numericamente e reforçando-se economicamente. Em 1337 já se refere a Rua da Judiaria e a afirmaçom de bairro delimitado cresce de igual forma englobando cada vez mais funções comerciais, artesanais e habitacionais. Com o crescimento urbano, a judiaria acabou por ficar num local central da cidade extramuralhas, justamente aquele que teria as características de espaço comercial e mercantil por excelência no burgo medieval.

Entre os séculos XIII e XIV os Judeus interessam-se na compra de terras ou no investimento de produtos vinícolas, interesse que poderá advir da necessidade de garantir aos Judeus leirienses os vinhos próprios e consentidos na sua tradiçom religiosa.

Muito provavelmente na Páscoa de 1377, os fiéis cristãos de Leiria invadiram a Judiaria "britando as portas" e fazendo "mal e dapno nos corpos", perante a passividade das justiças locais.

No século XV, Leiria atingia o apogeu da influência hebraica, ao ponto de empreenderem umha florescente atividade industrial. Nessa altura executa-se a delimitaçom física e isolamento arquitetónico da Judiaria, tendo já portas para a Pr. de S. Martinho em 1412.


Localizaçom da Judiaria de Leiria. GoogleEarth
O bairro judeu de Leiria estava centrado na Rua da Judiaria (Misericórdia), abrangendo a área hoje ocupada desde a Rua Dom Afonso Henriques, Rua Dom Dinis à Praça de S. Martinho e Largo da Sé. Em consequência, a antiga judiaria terá coincidido com o coraçom do atual centro histórico da cidade.

Planta de Leiria do séc. XV com localizaçom da Judiaria.
Arruamentos da Judiaria de Leiria. GoogleMaps
A superfície ocupada polo bairro judeu de Leiria rondaria cerca de 1.5 hectares, um pouco menor que a da Judiaria Grande de Lisboa (1.88 hectares) e maior que a do bairro judaico de Évora (1.24 hectares) e que a da judiaria do Olival, no Porto (com 1.20 a 1.8 hectares). No seio da Judiaria as escadinhas da Rua do Beco, ainda hoje existentes, abriram, assim, umha via de comunicaçom à Rua D. Afonso Henriques, entom chamada Rua de Cima, onde a direçom da Ordem de S. João do Hospital tinha prédios e onde a entrada de Judeus estava interdita.


R. do Beco no seio da Judiaria de Leiria. Imagem: Viver Jornal de Leiria
Antes da sua expulsom, a maioria dos Judeus de Leiria dedicava-se ao comércio e ao trabalho manual, mas também havia quem exercesse cargos de grande responsabilidade. Por exemplo, os médicos da cidade eram todos judeus e a sua importância tal que eram autorizados a circular livremente pelas ruas cristãs, o que era proibido ao resto da comunidade hebraica.

Descobrir a razom de ser do Largo dos Banhos, avaliar a localizaçom da Sinagoga (talvez, segundo a sabedoria popular, onde em 1544 foi construída a atual Igreja da Misericórdia) e imaginar os ourives artesãos, lagares e cavaliças as oficinas de couros e de ferreiros tornam esta visita ao Centro histórico medieval um desafio.
A Rua do Godim (atual rua Gago Coutinho) seria o limite meridional da Judiaria de Leiria.
GoogleMaps
Largo do Gato Preto, mais umha fronteira da Judiaria de Leiria
A escola, a prisom e mesmo umha das primeiras tipografias portuguesas também existiram na Judiaria. entre as quais a do judeu Samuel das Ortas. Foi nessa tipografia que em 1496 foi impresso o Almannach Perpetuum, do famoso erudito judeu Abraão Zacuto, um compêndio de navegações editado num período exponencial dos Descobrimentos.

Logo depois da expulsom dos Judeus de Portugal a numerosa comunidade de cristãos-novos de Leiria foi muito perseguida pola Inquisiçom, em especial durante o período de ocupaçom espanhola (1580-1640). 

Assim sendo, um dos processos mais antigos da Inquisiçom de Lisboa relativos a Judeus de Leiria diz respeito a Catarina Rodrigues, de alcunha A do-Penedo, que teria cem anos quando foi presa, em 1562. Denunciada por outros cativos do Santo Ofício, Catarina Rodrigues ouve a sentença condenatória em 15 de maio de 1563, sendo queimada no Rossio, em Lisboa, no dia seguinte.

O poeta Francisco Rodrigues Lobo foi o caso mais relevantes de perseguiçom em Leiria. Dos cristãos-novos, é a grande glória das letras da cidade. Morreu em 1616, afogado no Tejo, nas vésperas da grande denúncia que atinge a comunidade de Leiria. Entre 1617-20 produz-se umha explosom de denúncias que atinge, entre outros, familiares de Rodrigues Lobo que serám queimados na fogueira. A maioria das vítimas vivia na Rua Direita e na Rua da Misericórdia. Alguns iam assistir à missa como forma de defesa. Ao contrário de outras cidades, houve muitas tensões entre cristãos-novos e os irmãos da Misericórdia. Nom por acaso a maioria dos provedores foram bispos da cidade.

O bispo de Leiria, D. Pedro de Castilho, secretário de Estado e governante do reino durante o período de ocupaçom espanhol, foi um dos ministros da Igreja mais intolerantes contra os perdões gerais aos cristãos-novos. "Embora já não fosse bispo de Leiria no período de maior repressão, a verdade é que deixou as sementes. Existem centenas de processos da inquisição de judeus de Leiria, sobretudo em Lisboa e alguns em Coimbra", refere o historiador local Saul António Gomes.

No entanto, o lugar da antiga sinagoga, a referida igreja da Misericórdia, tornou-se num "edifício-espaço simbólico" junto do qual era costume os cristãos-novos se reunirem para assistir às práticas religiosas católicas.

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