domingo, 3 de novembro de 2013

CASTELO RODRIGO

A vila de Castelo Rodrigo é hoje umha freguesia de 500 habitantes pertencente ao concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Situado numha elevaçom de 820 metros, da que se pode vislumbrar a Serra da Marofa, a vila de Figueira e paisagens que se estendem até Espanha.

Castelo Rodrigo teve importância no século XIII em consequência do progresso da Reconquista. Conquistada por Afonso Henriques, em 1161 o rei galego Fernando II mandou repovoar a regiom. Poucos anos depois, em 1209 Afonso VIII da Galécia-Leom concede-lhe foral, visitando-a em várias ocasiões. A última visita, em 1230, quando se dirigia para Compostela para cumprir a promessa que contraíra em agradecimento pola tomada das cidades de Mérida, Cáceres e Badajoz. O monarca galaico-leonês nom pode chegar a Compostela pois caiu doente e morreu perto de Sárria. 


Entre 1208-10 este rei galego fortificou as povoações da linha fronteiriça entre o Reino de Galécia-Leom e Portugal e mandou edificar, para além do castelo de Castelo Rodrigo, os castelos de Alfaiates, Castelo Bom, Almeida, Sabugal e Vilar Maior.

Pola sua localizaçom geoestratégica, Castelo Rodrigo, que passou a domínio português em 1297 polo Tratado de Alcanices, teve importância nas guerras de libertaçom de Portugal contra Castela. Foi o rei Dom Dinis quem mandou edificar as grossas muralhas reforçadas por cubos semicirculares que protegiam o casario.

A 7 de julho de 1664 travou-se nesta vila a famosa batalha de Castelo Rodrigo, onde as tropas portuguesas comandadas por Pedro Jacques de Magalhães derrotaram o exército espanhol do Duque de Osuna.


Situada sobre um outeiro, hoje constitui um notável testemunho para estudar a realidade dumha pequena cidade dos séculos XV e XVI, já que com o seu declínio, ao perder importância como praça militar e fortaleza, os seus habitantes, a partir do século XVI, foram abandonando o recinto murado na procura dumha maior comodidade e foram-se assentando no que seria a nova cidade, localizada na encosta da colina: Figueira de Castelo Rodrigo. Isto fez com que a velha cidade amuralhada tenha permanecido praticamente congelada desde entom.

Castelo Rodrigo teve, em relaçom ao seu tamanho, umha importante colónia judia e, quando os reis católicos expulsaram os Judeus dos seus domínios, o rei português Dom João II assinalou Castelo Rodrigo como um dos cinco pontos para permitir a sua entrada em Portugal, juntamente com Olivença, Arronches, Bragança e Melgaço, devendo pagar cada judeu oito cruzados. Nessa altura a populaçom de Castelo Rodrigo situa-se por volta das 300 pessoas.

Milhares de Judeus súbditos dos reinos de Espanha refugiaram-se em Portugal, assentando muitos deles nas principais judiarias da zona: Castelo Rodrigo, Guarda, Trancoso e Sabugal. Em consequência, a próspera comunidade judaica de Castelo Rodrigo, viu-se incrementada. Porém, muitos dos seus membros converter-se-iam em cristãos-novos por causa da expulsom decretada polo rei português Dom Manuel I em 1496 e que deu lugar aos chamados "baptizados em pé". D. Manuel I concedeu um novo foral à cidade em 1508 e reedificou o castelo. A fasquia da cidade de entom foi recolhida nos desenhos de Duarte de Armas no seu "Livro das Fortalezas".



Os Judeus de Castelo Rodrigo, como noutras judiarias, desenvolveram múltiplas atividades. Enquanto os mais formados exerciam as profissões de escrivãos ou doutores, outros dedicavam-se a ofícios de artesanato, tais como alfaiates, sapateiros, curtidores, ferreiros e uns outros dedicavam-se ao comércio como arrieiros e transportadores comerciando com tecidos, vinho, óleo e outras mercadorias. 

Alguns Judeus eram penhoristas, atividade muito ligada à prosperidade financeira dalguns membros da comunidade, o que promoveu invejas e queixas por parte da populaçom cristã, que quando pedia dinheiro emprestado aos Judeus, nom aceitavam que estes cobrassem juros tão altos. Umha das queixas aconteceu em 1321 onde o concelho de Castelo Rodrigo se queixou ao rei D. Dinis, de que os juros praticados polos judeus arruinavam os moradores da vila e de aldeias vizinhas. Além disso, também havia os que se dedicavam à agricultura ou gadaria, atividade que alguns realizavam como complemento das suas ocupações habituais.


No ponto mais elevado da colina em que se implanta a vila, localiza-se o castelo de planta trapezoidal com diversas torres. A povoaçom era protegida por um muro de cerca com torreões redondos adossados, atualmente muitos deles arruinadas ou entom ocultos sob construções mais modernas. A cerca tinha duas portas: a de Alverca, orientada a Oeste, e a do Sol, virada a Nascente. Existia ainda um postigo do lado Norte. 


O traçado urbano no interior da cerca mostra um plano ortogonal que, adaptando-se à configuraçom do terreno, se desdobra em dous blocos. Registam-se no início do séc. XIV três igrejas paroquiais: Santa Maria (Senhora de Rocamador) e S. João, ambas intramuros, e S. Bartolomeu, no exterior, já desaparecida, situada onde está hoje o cemitério paroquial. 

Cidade Rodrigo. Foto: GoogleMaps

A antiga judiaria de Castelo Rodrigo localizava-se por volta das atuais Rua da Cadeia, Rua do Relógio e a Rua da Sinagoga que desemboca frente o prédio que ainda se conserva em relativo bom estado a sua miqvé, onde os judeus efetuavam os banhos rituais.

Planta de Castelo Rodrigo
Um dos vestígios da presença hebraica em Castelo Rodrigo está no Poço-Cisterna, construçom que apresenta duas estruturas arquitectónicas distintas, umha ao estilo gótico, a outra com arco em ferradura, denotando umha influência islâmica que, supostamente terá sido edificada ainda no século XIII. Segundo a tradiçom local, poderá ter pertencido à cisterna/mikvé existente na sinagoga desta povoaçom.


Castelo Rodrigo conserva um grande número de prédios, cujos muros exteriores, acima de todo na sua parte correspondente aos pisos baixos com os seus ocos de portas e janelas, som originais da Idade Média, mormente dos séculos XV e XVI. É por todo isso que se trata dum bom local onde levar a cabo a identificaçom das possíveis habitações de Judeus ou conversos.
R. da Cadeia de Castelo Rodrigo. Foto: Fonseca Moretón
Várias casas mostram nos seus muros gravadas cruzes de conversos, mas nom existem edificações com a concavidade para a mezuzá. Um número significativo de habitações possuem umha pequena concavidade polida na altura da ombreira onde devis estar colocada a mezuzá. Por exemplo, o número 32 da Rua da Cadeia. 


Casa da R. da Cadeia nº32. Foto: E. Fonseca Moretón

Na porta do número 36 desta rua existe o mesmo tipo de concavidade na ombreira esquerda, com umha cruz de converso na mesma pedra. A habitaçom do número 25 apresenta a concavidade na pedra central da ombreira direita da porta.

Casa da R. Cadeia nº36. Foto: E. Fonseca Moretón
Casa da R. Cadeia nº25. Foto: E. Fonseca Moretón

O número 14 da Rua do Relógio mostra umha cruz e umha concavidade na pedra da ombreira direita. 

Casa da R. Relógio nº14. Foto: Emilio Fonseca Moretón

Na Rua da Sinagoga é singular umha porta parcialmente enterrada abaixo o nível atual da rua que apresenta concavidades nas suas ombreiras, com duas cruzes gravadas no lado esquerdo e umha cruz de três braços horizontais (a menoráh) no lado direito. 
Casa da R. Sinagoga de Castelo Rodrigo. Foto: Fonseca Moretón


No número 6 da Rua Pátio do Castelo, um beco sem saída, existe umha concavidade no lado esquerdo e três cruzes no centro do lintel que parecem representar o Calvário, já que a cruz do meio é de maior. 
Casa da R. Pátio do Castelo nº6 de Castelo Rodrigo. Foto: Fonseca Moretón

No número 8 da Rua da Misericórdia umha pequena porta de entrada tem biseladas as suas arestas e mostra umha cruz gravada no centro do lintel. 


Casa da R. Misericórdia nº8 de Castelo Rodrigo. Foto: Fonseca Moretón

Mais casas de Castelo Rodrigo mostram concavidades nas suas portas ou cruciformes gravadas ou ambas.


1 comentário:

  1. Caro Arqt. Emílio Fonseca Moretón
    Concordo plenamente com a tua análise à aldeia de Castelo Rodrigo. Quanto ao edifício que a tradição considera de provável Mikve, julgo que poderia apresentar influências distintas quanto ao desenho das portas em estilos diferentes.
    Um abraço do amigo José Afonso

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